SEREIOS DO AR

Nunca acreditei nas histórias horripilantes sobre Sereios do Ar. Para mim era tudo invencionice, causo de pescadora. Mesmo minha mãe e irmã jurando serem verdadeiras, eu me mantinha incrédula. Assim fiquei, até encontrar, próximo a Grande Nuvem de Magalhães, o pequeno quimero-celeste enrolado na tarrafa eletrostática.

Eu estava prestes a completar quatorze estações secas quando aconteceu o acidente com Amanda. Minha irmã caiu da nave de pesca. Foi engolida pelo espaço. Dona Yolanda, minha mãe, mestre da embarcação, ainda revirou a Via Láctea. O corpo jamais apareceu. Ainda guardo na memória a imagem do meu pai lançando as pétalas de parassóis no cosmo. Um tributo prestado a todas as Neo Caiçaras que não voltam para casa.

A tragédia me obrigou a abandonar o colégio para assumir o posto vago. Seu Brito, meu pai, foi contrário. A dor de perder uma filha queimava sem trégua no peito. Mamãe, não era insensível àquele pesar, mas a vida deixou uma única opção, a pescaria. Diante da angústia de papai, fiz uma promessa: voltar sã e salva. Um juramento que eu mesma temia não cumprir a cada partida do aero-cais. 

Sete estações secas passaram. Minha mãe adoeceu. O Mal da Matéria Escura a tornou temporariamente inapta para o trabalho. Neste intervalo fiquei responsável pelo sustento da família. Para nosso bem, a moléstia não a impedia de ir ao Mangue Árido pegar Caranguejo-Da-Sílicai. A tarefa, além de ser fonte de renda extra, a ajudava a se sentir útil.

Logo nas primeiras idas ao espaço ficou evidente que o trabalho, para apenas uma pescadora, era inviável. Eu precisava de mais alguém na nave. A notícia se espalhou rapidamente pela Vila do Areial. Daniela, uma jovem beirando treze estações, manifestou interesse em aprender o ofício. Com a temporada de pesca das Cavalas-Saturno chegando ao fim, não tive tempo de instruir a garota. Ela aprenderia na prática. Deste modo zarpamos, indo para o Atol Dorado, onde as iscas foram lançadas. 

Daniela era inteligente, atenta, seguia todas as instruções e fazia muitas perguntas, sinal de quem realmente quer ser pescadora. E como toda novata de primeiro voo quis saber sobre os Sereios do Ar. Se eles levavam as mulheres para as profundezas do espaço. Respondi que nunca tinha avistado nada, e que o melhor era mudarmos de assunto. Segundo as pescadoras mais velhas, falar das criaturas a bordo da nave de pesca trazia má sorte.

Talvez a crendice tivesse mesmo poder, o fato é que, em quase uma jornada de trabalho, não pegamos nada. Decidi recolher a tralha e voltar. Porém, Daniela avistou um cardume de Sardinhas-das-Nebulosas, resolvi ir atrás. Precisava pegar pelo menos algumas para consumo próprio e para incentivar a ajudante. 

Navegamos até próximo da Grande Nuvem, fora da minha tradicional rota de pesca. Parei na posição exata, acima das sardinhas, disse para lançar a tarrafa. Após o barulho do choque, puxamos a trama para pôr o pescado no interior da nave. Na movimentação notei uma pequena cauda de escamas enegrecidas e brilho furta-cor entre o prateado das Nebulosas. Intrigada para saber qual espécie seria, liberei logo a rede.

As sardinhas se espalham pelo convés e um Sereio do Ar se revelou. No susto peguei o arpão, Daniela pulou para trás, quase caiu da nave. Na hora de golpear, percebi que se tratava de uma criatura infantil. Um ser muito diferente das histórias aterrorizantes contadas pelas pescadoras. Parei o ataque. A julgar pelo corpo sem reações, a criaturinha havia morrido quando recebeu a descarga elétrica da tarrafa.

O sereiozinho tinha um aspecto dócil. Tive dó em ter tirado a vida de uma criança. O rosto era arredondado. O cabelo crespo, aparado nas laterais. O tronco e os braços, apesar de pequenos, eram definidos. Tinha os dedos alongados, com membranas entre eles. A cauda, escura e brilhante, era quase uma extensão da pele negra. Jamais pensei que os quimeros-celestes pudessem ter a minha cor.

Naveguei para casa. A culpa atormentava a razão. A lembrança da morte de Amanda veio à tona. A tristeza pela qual vi meus pais passaram e que também passei. A dor da ausência. O luto massacrante. O porquê? Todos aqueles sentimentos ruins, os parentes do pequenino irão sentir. Com certeza, haverá uma família padecendo da mesma tortura. E eu era a causadora do mal.

Se contrapondo ao meu desânimo estava o entusiasmo de Daniela. Primeira pescaria e uma grande história para contar. O povo da Vila do Areial jamais esqueceria o feito épico. A aventura seria contada por gerações. Nossos nomes lembrados para sempre. Ela bradava para o universo a glória.  

Ao entrar na estratosfera terrestre escutei gritos. Olhei Daniela indo pegar o arpão. Preocupada fui imediatamente para o convés. O sereiozinho havia despertado. A novata estava exasperada. Pedi calma, e que me entregasse a arma. Recusou, alegando ser melhor matar o monstro para não ter problemas quando fosse maior. O impasse durou até surgir a ideia. Amarrei o corpo da criatura e o levei para o porão. Afirmei que estávamos seguras. E o que ela sentia era medo. Algo natural para quem passou a vida escutando causos macabros. Expliquei meus motivos de não querer matá-lo e o plano de voltar ao espaço na tentativa de achar a família do quimero. A fiz prometer que não contaria nada para ninguém da Vila. 

Ancoramos no aero-cais. Fomos descarregar os pescados. Quando entramos no porão o Sereio roía as cordas. Daniela correu. Aos berros anunciou para todos da plataforma que a aberração estava dentro da nave de pesca. As pescadoras pegaram cordas, redes, arpões e gritavam para matarem a criatura. Instintivamente fugi com a embarcação.

No espaço, ainda confusa, sem saber se fiz o certo, fui ao porão. Ao abrir a portinhola o sereiozinho havia se soltado e voo. Corri para o convés. O quimero voava a frente da nave, resolvi seguí-lo. Passamos pelo Atol Dorado e na entrada da Grande Nuvem avistei, vindo de encontro, outros Sereios do Ar. O pequeno sorriu para mim. 

A família estava reunida novamente. Fechei os olhos, estava em paz. A imagem de Amanda preencheu meus pensamentos. Senti alívio na alma. Senti também uma mordida no pescoço. Cai no piso. Olhei a criaturinha com a boca cheia de sangue. Peguei o arpão, foi inútil. Os demais Sereios me atacaram. Enquanto sou devorada penso nos meus pais lançando as pétalas de parassóis no cosmo.